0 Wanderlust: Chapada Diamantina








“Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.”

(Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa)



Começo por uma consideração final, como uma espécie de advertência pelo tom assumido: renasci na Bahia, pelas mãos do mistério, do risco e, sobretudo, da beleza. Em junho desse ano, embarcamos no que seria uma experiência ímpar de aventura, superação e entendimento: uma travessia de sete dias na Chapada Diamantina.

Em tempos em que a nossa civilização atingiu um grau de sofisticação tão elevado que nos distancia cada vez mais da nossa condição animal e faz com que pareçamos qualquer coisa exceto parte de um todo orgânico, urge a necessidade de entrar na contramão, desligar o smartphone, colocar os pés no chão da floresta e resgatar o espelho e a extensão que somos, do outro, do cosmos, da terra, das árvores. Para cuidar, para que perdure, para que ressoe aos ouvidos dos que hão de vir. 



Geograficamente, uma chapada consiste numa área plana localizada no alto de regiões serranas. No Brasil, as três chapadas mais conhecidas são a Diamantina, dos Veadeiros e a dos Guimarães.

Localizada no centro do estado da Bahia, a Chapada Diamantina é a maior do Brasil e está inserida na Serra do Espinhaço, cadeia montanhosa localizada no planalto Atlântico que estende-se até o estado de Minas Gerais e garante o título do que é considerada a única cordilheira do país. Seu nome fora atribuído em virtude do seu solo abundante em jazidas de ferro, manganês, bauxita, diamante e ouro. 

Por ser uma das regiões mais ricas do planeta em função da sua grande diversidade biológica, a Chapada Diamantina é considerada reserva mundial da biosfera. Sua vegetação é composta de um mosaico que conjuga caatinga em todas as suas nuances, cerrado, campos rupestres e diferentes tipos de mata. Incontáveis orquídeas, bromélias, cactos, insetos, répteis, mamíferos, aves, entre outros, dão cor e som à região.

Ao caminhar pelas paisagens que compõem a Chapada, é possível, não sem emoção e espanto, constatar pessoalmente que o que hoje é sertão já foi banhado pelo mar há cerca de 1,8 bilhões de anos, quando um choque de placas tectônicas criou as profundas fendas e esculpiu a geologia do terreno. Percebe-se a todo momento vestígios de vida marinha. Soma-se a isso a ação dos ventos e rios que reuniram pedras e contribuíram para talhar os cenários locais.



O Parque Nacional da Chapada Diamantina foi criado em 1985, por decreto federal, e abrange os municípios de Andaraí, Lençóis, Palmeiras (onde localiza-se o famoso Vale do Capão, reduto hippie) e Mucugê, nos quais pode-se estabelecer base para explorar seus atrativos.

Embora Parque Nacional, não há infraestrutura garantida pela União aos viajantes que exploram a região. Não há refúgios públicos, infraestrutura para camping ou sinalização nas trilhas. Portanto, para conhecer é preciso fazê-lo com guias de uma das muitas agências que atuam na região. É possível fazer passeios de um ou dois dias, até trekkings que duram 15 dias e cobrem a Chapada em quase sua totalidade. 

Optamos pelo de sete dias, com saída da cidade de Lençóis e término na cidade de Andaraí, totalizando cerca de cem quilômetros. Tida como uma travessia clássica, passa pela Serra do Veneno, Cachoeira da Fumaça por baixo, por cima, Vale do Capão e Vale do Pati, terminando no Poço Azul. O roteiro incluiu duas noites em acampamento selvagem, uma em pousada simples e as três noites restantes em casas de moradores locais. 



É muito importante que as travessias sejam feitas na companhia de um guia. Eles são profundos conhecedores da região (muitos são habitantes) e eu não saberia dizer o que seria da travessia sem guias experientes para orientar nos momentos de muita tensão (a caminhada alterna momentos muito difíceis e moderados, nunca fáceis) e no fornecimento das informações sobre a vasta e magnífica fauna e flora local. Tivemos dois guias. Um que nos acompanhou nos três primeiros dias e outro que nos acompanhou nos quatro últimos, Puma e Lúcio.


Antes de tudo


Para chegar em Lençóis, de onde partiríamos, foi necessário um voo até Salvador e um ônibus até Lençóis, trajeto feito em mais ou menos sete horas. Apenas uma empresa faz o percurso, chama-se Rápido Federal e oferece poucos horários a partir da rodoviária. 

Chegamos em Salvador à meia noite e fomos recepcionados pelo responsável pela agência em que fechamos o trekking, exaustos e excitados para iniciar a empreitada que começaria no dia seguinte e que foi infinitamente diferente do que supúnhamos. Primeiro porque o grau de dificuldade surpreende, segundo porque as fotos e vídeos que vemos e os depoimentos que lemos não dão conta da mágica que o lugar tem. 



Não pretendo aqui uma explanação exaustiva, rica em detalhes, mas, sim, linhas gerais que permitem uma ideia do que foi. No entanto, perguntas são sempre bem-vindas. Passemos, pois, a um breve relato dos dias que se seguiram. 


Dia 01


Pernoitamos no hostel Pouso da Trilha Hospedagem que nos serviu um café da manhã digno de avó, recheado de comidas típicas. Fomos para agência abastecer as mochilas, conhecer o guia e o restante do grupo que nos acompanharia pelos próximos dias. Cada um deveria levar uma mochila com capacidade mínima de 65 litros. A agência fornece todo o equipamento (barraca, isolante térmico, saco de dormir, cordas, mosquetões etc.) e alimentação, mas estes são divididos entre o grupo. Tem-se aqui um detalhe que faz muita diferença, além do esforço que a travessia exige, este será potencializado pelo peso da mochila que diminui conforme os suprimentos são consumidos. É importante levar o mínimo de itens pessoais possível, pois chegará um momento que uma bola de algodão fará diferença. Nosso grupo era composto de quatro homens, além do guia. Tudo pronto, pé na trilha. 



Saímos de Lençóis e gradualmente adentramos ao Parque Nacional. Na primeira hora cruzamos com duas inofensivas cobras e o que era uma preocupação se diluiu. Os animais não atacam em condições normais se houver uma relação de respeito. Você encontrará répteis, especificamente, em duas situações: de passagem ou dormindo. Cabe a você tomar cuidado para espera-lo passar, não pisar ou apertar quando se apoia em árvores para caminhar. Vale a dica de, quando parar, nunca deixar as botas dando sopa e sempre conferir se não há nenhum amigo dentro delas antes de calçá-las. 

Passamos pelo Ribeirão do Meio, tobogã natural de pedra, que representa uma amostra do que viria em termos de beleza. Dá-se início a subida da serra do Veneno onde avistamos a cidade pela última vez, com algumas paradas para contemplação e consumo de água, abundante e própria para o consumo. Seguimos cruzando a serra até o mirante da Toca da Onça onde há uma parada para lanche e descanso. Contornamos a serra até o rio Palmital, onde paramos numa cachoeira incrível, homônima, de 35 metros, que lembra um anfiteatro. Próximo ali, sobre o rio, numa fenda, encontrava-se a base onde jantaríamos e montaríamos acampamento. 



O primeiro dia, embora eu tenha escorregado e batido o cóccix numa pedra, foi o mais tranquilo. Foi puxado, com muitas pedras, subidas e arranhões, mas acho que havia energia acumulada, além de muita empolgação. Cabe uma nota: sigo uma alimentação vegetariana e embora a agência tenha se preocupado com isso, eu não dispunha das minhas proteínas e não me alimentei como deveria nos dias de trilha, logo, minha energia foi reduzida em relação aos meus companheiros de trilha. 

O curioso é que rapidamente você embarca naquele modus operandi e seus hábitos se integram completamente com a natureza. Não há espaço para excessos. Hábitos de higiene, por exemplo, somente os estritamente necessários. Tudo compensado por um céu absurdamente estrelado e sem nenhum ruído da civilização. 


Dia 02

Passada a noite em claro, de adaptação aos sons, à dinâmica, ao movimento daquele organismo no qual havíamos nos inserido, despertamos com muitas dores musculares do esforço do dia anterior para começar o que seria o segundo dia mais intenso e difícil. Margeando o rio Capivara até sua incrível cachoeira, rumamos em direção ao poço da cachoeira da Fumaça ou como chamam, a Fumaça por baixo. O caminho é muito pedregoso e bastante difícil e por diversos momentos o medo nos toma de assalto e o corpo reclama da dor, do peso. Virei o pé direito. 

Numa espécie de cenário pré-histórico chegamos ao poço da cachoeira e não há explicação para o que invade a gente ao olhar aquele imenso paredão que ameaça e protege ao mesmo tempo.  



Há cerca de meia hora do poço encontra-se uma fenda no paredão de difícil acesso, à beira do abismo, onde passaríamos a noite. Vale explicar que ao longo do dia só fazíamos lanches e à noite o guia fazia algo mais elaborado e substancial. Montamos acampamento e enquanto descansávamos, assustados, o guia informou, para desestabilização geral, que o dia seguinte seria o mais complicado dos sete dias de trilha. Ninguém dormiu, eu acordava o tempo inteiro com espasmos achando que estava abismo abaixo. 


Dia 03 


Após o café da manhã, descemos do abrigo e fomos pegar água no poço da fumaça para começar a subida mais íngreme de todos os dias, na lateral esquerda do paredão da cachoeira da Fumaça. Caminho que não estava previsto no roteiro e que descobrimos depois que poucos guias levam viajantes por ele. 

A subida é marcada por vegetação densa e úmida. Por vezes o guia precisou abrir caminho com facão para que pudéssemos passar. Em alguns trechos contamos com apoio de corda, dos colegas e em outros da própria sorte, como quando surgiu uma fenda absolutamente íngreme e molhada em que escalamos apenas com o apoio das mãos e pés, com a mochila puxando para o abismo que estava atrás. Momento mais simbólico, vencê-lo foi de grande beleza. 



Margeando precipícios chegamos a Fumaça por cima e avistamos todo caminho do dia e do dia anterior. Seguimos para o Vale do Capão com direito a pôr-do-sol incrível, onde pernoitaríamos com certo conforto, numa pousada simples. Nesse dia houve a troca de guias. 


Dia 04 


Saímos do Capão e iniciamos a caminhada por uma subida até o Gerais do Vieira. Nesse momento pensei em desistir, somada às dores surgiu uma náusea perturbadora, mas ao mesmo tempo em que pensava em voltar, o sentimento de que já tinha aguentado tudo até ali me movia a passos lentos, é verdade. Paramos no córrego das Galinhas e seguimos até o Ranchinho, onde lanchamos. 



Seguimos pelo Gerais do Rio Preto até chegar ao Vale do Pati, com inúmeros mirantes de paisagens que tiram o fôlego. Três momentos definem esse dia, a subida, o platô e a descida. É o dia em que mais se caminha e lá você descobre que o conceito de tranquilidade é relativo. Quando o guia diz que vai ser tranquilo, não será. Terá uma escalada, terá uma subida, terá pedra, terá água. Sempre. 

Alcançamos a Igrejinha, onde vive o Sr. Nô, dono de um pequeno armazém e de alguns quartos que são oferecidos aos viajantes. Jantar preparado, um dedo de prosa e cama. Esse é o momento da travessia em que mais se encontra com outras pessoas. Muitos viajantes chegam à Chapada somente para atravessar o Vale do Pati e é nesse dia que encontramos essas pessoas, ouvimos histórias, trocamos experiências. 


Dia 05


Dia propositalmente tranquilo dedicado a conhecer as cachoeiras do rio Funis, com parada para banho nas três: Altina, Funis e Lajedo. Retorno à Igrejinha para mais um pernoite por lá. Estávamos muito cansados e optamos por modificar o roteiro para ter um dia mais calmo, embora tenha falado anteriormente sobre como é relativo o conceito de tranquilidade para aqueles que têm a Chapada como quintal. 




Dia 06 


O dia em que acordei com crise renal e descobri que a água da Chapada é riquíssima em ferro a ponto de fazer seu rim parar. Sorte ter uma médica no mesmo alojamento e receber instruções precisas para continuar a jornada. É fundamental beber água em intervalos curtos e utilizar pastilhas purificadoras de água para amenizar impactos ao organismo. 

Fomos para o que é conhecido como Pati do Meio, onde somos acompanhados pela clássica visão do morro do Castelo. Paramos para banho no Poço da Árvore. Seguimos para a casa de Dona Linda, generosa habitante do Vale do Pati que abre suas portas para receber com muita dignidade os viajantes que ali passam. 




Dia 07 


Acordamos muito cedo e desfrutamos de aipim cozido e pão de fermentação natural feitos pela Dona Linda. Tínhamos que chegar ao meio dia na cidade de Andaraí, onde nos esperavam para o Poço Azul. 

Subimos a ladeira do Império, não sem dores, onde as vistas são incríveis e tivemos a sorte de pegar uma bela névoa. Paramos em muitos mirantes e pudemos perceber as marcas deixadas pelo garimpo na região. 



Recepcionados por um forró na cidade, resquício das festas de São João, fomos levados ao Poço Azul, onde nadamos na caverna com água de um azul muito cristalino. 




Extra


Ao terminar a travessia em Andaraí, retornamos de carro para Lençóis, onde teríamos duas noites e um dia de descanso antes de retornar para Salvador. Nos hospedamos na encantadora Pousada Vila Serrano e, mesmo exaustos, resolvemos fazer, no dia seguinte ao fim da aventura, um tour de um dia que incluiu o rio Mucugezinho, Poço do Diabo, Gruta da Pratinha, Gruta Azul, Gruta da Lapa Doce e o Morro do Pai Inácio. Não foi menos surpreendente e é um passeio bem fácil para aqueles que desejam conhecer a Chapada sem muito esforço. 




O que fica


Se alguém falasse que eu seria capaz de fazer tudo que fiz, não acreditaria, mesmo não sendo nenhum sedentário e já ter certa experiência com trekkings. A ferida aflora, o sangue brota, você cai, levanta, acha que não vai conseguir mais, sente medo, se encanta, percebe que a linguagem é pobre para dar conta de tudo, o pensamento abre espaço para ação e uma força irrompe feito semente que rasga o solo. Presença total no instante presente. A dor existe, mas maior é o poço de água gelada revigorante logo ali. 

Saber-se parte, pedaço, fagulha de um ontem longínquo, entrar em contato com a própria natureza, porque está tudo interligado, é ter a vida reverberando em cada átomo do qual sou composto. Experimentar a gentileza, o respeito e a sabedoria daqueles que vivem fora da insana dinâmica das cidades escancara cada vez mais o portal para um processo bonito que está apenas a germinar. O universo é generoso e, entre tantos símbolos, me embalou nos seus braços. Renasci. Dou graças.







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