0 Resenha de livro - Livre






Terminei de ler Livre comovida demais pra fazer qualquer outra coisa além de escrever essa resenha. Não foi um livro fácil e muito menos rápido porque embora eu me sentisse totalmente viciada na narrativa, as dores tanto físicas quanto emocionais da protagonista me assustavam a ponto de ter que ficar alguns dias sem ler a fim de me preparar pros próximos capítulos.

Cheryl Strayed, autora do livro, narra a sua própria jornada como trilheira na Pacific Crest Trail, ou PCT (trilha de caminhada que corta os Estados Unidos se estendendo da fronteira do México à fronteira do Canadá). 

O que torna a história interessante (algo que vai além de um “livro de aventura”) são os motivos que a levaram até lá (após perder a mãe, que morreu de câncer aos 45 anos, Cheryl entra em uma espiral de problemas envolvendo drogas e sexo que poderia ser simplesmente descrita como “destrutiva”) e as reflexões que ela faz ao longo da caminhada.

Em alguns momentos, enquanto descreve um momento do percurso, Cheryl se permite contar alguma história do passado e qual é o efeito que isso teve sobre o que ela é agora e porque ela precisa se agarrar a essa lembrança ou porque ela precisa deixá-la partir.

Não há dúvida: ler Livre significa fazer a caminhada com Cheryl. É impossível não se sentir um pouquinho mais “informado” sobre o que é ser um trilheiro após acompanhar as peripécias de Cheryl. Os erros que ela comete em relação a tudo (fogareiro, dinheiro, quantidade de carga etc) demonstram que ela estava tão preparada para fazer trilha quanto eu ou você (considerando que você não seja nenhum trilheiro especializado), ou seja, nada preparada.

O livro é uma variedade de temas, mas alguns se destacam mais. Abaixo conto um pouquinho sobre as questões mais recorrentes:

O que significa ser mulher e estar sozinha

Lendo Livre eu só conseguia pensar em uma coisa “tomara que os homens leiam esse livro” pra eles sentirem o que significa ser mulher e estar sozinha e se sentir totalmente vulnerável. E, então, eu pensava “tomara que os homens não leiam esse livro” pra que eles não saibam o quão ameaçadores eles podem ser se quiserem.

Em diversos trechos, Cheryl descreve todos os medos e ameaças que são decorrentes do fato de ser uma mulher caminhando sozinha. Não tem a ver com o fato de um homem ser mais forte, ou alto ou rápido. Tem a ver apenas com o fato de o que esse homem ACHA QUE TEM O DIREITO DE FAZER com uma mulher sozinha.

“Fiquei parada por um tempo, do mesmo jeito que tinha ficado na primeira vez em que eles saíram. [...] Foi apenas um homem repulsivo, assustador e nada legal, e agora ele foi embora. Mas então eu coloquei a barraca de volta dentro da mochila, desliguei o fogareiro, joguei a água quase fervendo no mato e mergulhei a panela no lago para esfriar.[...]Caminhei, caminhei, minha mente entrou no automático, que era o esvaziamento de qualquer coisa a não ser do movimento à frente, e caminhei até que andar se tornasse insuportável, até achar que não conseguiria dar nem mais um passo. E então eu corri.”

Os comentários e comportamentos machistas de diversos homens ao longo do percurso deixavam Cheryl com um medo constante de sofrer algum tipo de abuso sexual (o moral acontecia frequentemente). Muitas vezes a única solução era a seguinte: dizer que tem um homem (marido, namorado, amigo) mais atrás que já está chegando para encontrá-la.
Um homem imaginário tem mais poder e merece mais respeito do que uma mulher real. Esse é o mundo absurdo em que vivemos.






Ressentimentos e culpas em relação à família

Uma das pessoas mais citadas no livro é a mãe de Cheryl, Bobbi, cujo falecimento tão precoce ocasionou em um colapso de Cheryl em relação a tudo. Cheryl reflete muito em relação à mãe, sobre todos os erros que ela cometeu com os filhos (Cheryl tem mais dois irmãos) e sobre como a mãe podia ser imprudente e irresponsável em alguns momentos. E também sobre o quanto ela amava os filhos incondicionalmente.

Cheryl comenta algumas vezes sobre a culpa que sente por ter tentado diversas vezes insinuar que era superior à própria mãe. Como exemplo, ela narra uma conversa que teve com a mãe em que ela comentava o fato de ser muito mais “sofisticada” do que ela naquela idade. 

A autora comenta os ressentimentos que os filhos sentem com os pais ou que os irmãos sentem entre si e deixa claro que isso em nada afeta o amor existente entre eles. Todos têm suas feridas e aprendem a seguir em frente com elas.

O orgulho de conseguir carregar tudo o que é preciso para viver

A satisfação de Cheryl ao carregar tudo o que precisava pra viver, ou até bem mais do que precisava (sua mochila foi apelidada de Monstra por conta do tamanho absurdo), é uma felicidade. Ela narra algumas vezes esse sentimento de liberdade de uma forma que nos dá vontade de fazer algo do tipo. Imagine fazer uma mudança agora. De quantas caixas e malas você precisaria? Imagina poder carregar tudo em apenas uma mochila? Acho que seria incrível ter essa sensação.

Nada é definitivo

Cheryl tem altos e baixos tão freqüentes que chega a ser meio desesperador. Se em um dia ela fica realizada por ter conseguido alguma coisa, no outro ela não consegue mais. Se ela acerta em cheio em alguma intuição, logo em seguida ela erra de uma forma quase irreparável.

“Caminhar na PCT era o esforço enlouquecedor de tricotar aquele suéter e desfiá-lo, e mais uma vez. Como se tudo o que foi conquistado estivesse inevitavelmente perdido.”

Nada é contínuo. Os problemas vêm e vão sem parar e isso me pareceu muito real, muito palpável. Nada se resolve com mágica. É exatamente como a vida.






A vontade de viver

A única coisa que aproxima um ser humano normal (não-trilheiro, hahaha) de Cheryl enquanto lê o livro é a vontade que ela tem de viver. Você pega o livro pensando “porque alguém faria isso e se colocaria em risco desse jeito?” e a autora te surpreende com momentos que te fazem pensar que ela é nada mais, nada menos do que uma pessoa normal.

O livro de Cheryl não tem aquele clima blasé de “nossa, eu posso morrer estando aqui sem água, mas essa vista super compensa”. É totalmente o contrário! Ela se questiona várias vezes, entra em desespero várias vezes e tem um instinto de sobrevivência que deixa o leitor até orgulhoso da força que ela tem.

E é incrível ver que depois de passar por tudo (pai violento, a morte da mãe, o período de loucura e de depressão), ela tinha uma vontade de viver que se torna uma inspiração pra qualquer leitor.

Ah! São duas lições que você aprende ao longo do livro: Água é vida. E limonada Snapples também.

Não poderia recomendar mais esse livro! Por favor, leiam!

As fotos que ilustram este post são da versão cinematográfica, lançada em 2014, na qual Reese Whiterspoon faz o papel de Cheryl Strayed. Abaixo, uma foto da verdadeira Cheryl:




Foto: Vulture

Queria aproveitar para contar que passei um ano lendo quase que integralmente apenas livros de escritoras mulheres! A única exceção foi o Dragão de Gelo, do George R. R. Martin. E, sem dúvida, tem sido um período muito proveitoso (pra não dizer maravilhoso!) de leitura.

Ler é a atividade que mais me lembra de quem eu sou. E é a que mais me ajuda a conhecer a mim mesma. Cada livro é mais um centímetro desvendado. Às vezes, a gente precisa pegar emoções emprestadas dos personagens para compreender o que realmente nos afeta e nos constitui.

Além disso, escrever é o que mais amo fazer. E tem sido uma experiência incrível compartilhar isso aqui com vocês.

Obrigada por tudo.


E leiam Livre! Já viram o filme? Contem nos comentários o que acharam!
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